domingo, 4 de maio de 2014

S de Senna


Senna se solidarizava sempre. Sabia sua sina: ser símbolo social. Sendo sábio, soube ser simples.

Sincretizava sambas-sinfonias, silvas-shakeaspeares, subúrbios-soçaites.

Solidário sintonizava sentimentos: seríamos seres servis, subnutridos? Subdesenvolvidas sucatas subservientes?

Stop.

Senna sepultou segregações, silenciando soberanos senhores.

Sabiam? Somos sul-americanos, somos sol, sertanejos seculares, sofisticados seres singulares.

Senna sorria sinalizando seriedade.

Sabia ser simpático sem sequestrar sinceridade.

Soldado, seu suor significava sangue. Seu semblante sentenciava soluços, segredos, sedes, sombras.

Sim, Senna sofreu.

Simultaneamente, somava sucessos, semeando sonhos.

Senna soube sutilmente superar sortilégios.

Sobre Senna, sinceros sinônimos: sensacional, sedutor, superior. 

Sobressalto! 

Senna saiu. Senna subiu.

Sem Senna, sem saída, somos só sobreviventes.

Sem sundays, sofás, sons... somos só silêncio.

SOS.

Somos sós.

Saudades suas.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Doentes


 Saúde e beleza fazem parte da busca desenfreada de tantos terráqueos nos dias atuais.
A beleza é mais um ponto de vista, que depende muito da vista e também do ponto.
A saúde não. Ela é por natureza multidisciplinar. Ela é conseqüência e não causa. Ela é a matéria prima pra tudo o que ser humano pode produzir.  Ela não é necessariamente o oposto da doença, pois existem muitos doentes saudáveis.
Para se ter saúde, é necessário o emprego digno e honesto que possa comprar o alimento que assegure a energia necessária ao trabalho.
E no trabalho, valer-se de equipamentos e do ambiente buscando preservar nossa integridade física e contar também com um patrão que nos preserve a integridade psicológica.  O trabalho precisa ser saudável para a gente ter saúde.
Para se ter saúde é necessário um teto, uma casa. Mais que isto, um lar e uma família que nos acolha e nos queira bem. Para ter saúde, carecemos do amor da família.
E além do lar, nossa saúde depende de água tratada, esgoto tratado, transporte público, a creche, a escola, um supermercado e também é claro, um posto de saúde e um hospital que respirem saúde nas instalações e nos profissionais que lá trabalhem.
Para se ter saúde é imprescindível contar com segurança.  Aquela que garanta a ida e a volta, que nos traga tranqüilidade em tempos de tantos conflitos. Imponderavelmente, para termos saúde, precisamos de paz.
Para se ter saúde, necessitamos do papo com os amigos, do esporte com os amigos, do lazer com os amigos, do abraço e do sorriso dos amigos.  A saúde anda de mãos dadas com a amizade.
Assim, a saúde vai muito além do nosso corpo físico, dos exames de alta tecnologia, dos equipamentos de geração avançada ou do atendimento por médicos de excelente qualificação técnica, na tentativa de garantir a continuidade de nossa existência.

Por tudo, não é difícil perceber, por tantas dores dos dias atuais, como a falta de carinho e de afeto, a ausência do diálogo, o desrespeito e a insensibilidade, a corrupção e a impunidade, pelas drogas que brotam das ruas, pela desvalorização e desqualificação do ser humano, que estamos, todos nós, muito doentes. 

domingo, 16 de março de 2014

INDIGNAI-VOS

Há anos assistimos à cansativa, exaustiva, enjoativa e repetitiva resposta para a ausência de resolução, a ineficiência e a morosidade da administração pública: o excesso de burocracia.
“Gostaríamos de ter mais agilidade para resolver este problema, mas, você sabe né? tudo na administração pública é moroso, é difícil, é complicado”. Esta é a frase mais utilizada pelos gestores públicos para as ditas “perguntas indesejáveis”, sejam elas feitas por jornalistas que precisam de informações para repassá-las à população, ou mesmo, endereçadas a um morador que necessita saber sobre a solução para os buracos existentes em sua rua. 
A frase é um antídoto que nada explica, mas que todo mundo tem que engolir goela abaixo. Fazer o quê? Acabamos, todos nós, por aceitar o inaceitável.  Faltou medicamento na farmácia popular? A culpa é da doença da burocracia.  O buraco da rua continua a fazer suas vítimas? O buraco é mais embaixo, é a burocracia.  Não conseguiu se resolver o problema do trânsito? Sabe como é a burocracia congestiona a rapidez das soluções.
Você é gestor público e não tem uma resposta conclusiva para um problema, não sabe o que vai dizer, a pressão popular aumentou?  Simples.  Use o antídoto. “Nós estamos juntando todos os nossos esforços para tentar resolver o problema. Porém, sabe como é, a máquina pública, o orçamento, a hierarquia, os processos, a impossibilidade da quebra de paradigmas, a lei de licitação, o capitalismo, a questão partidária, o aquecimento global...”  
O excesso de burocracia passou a ser justificativa para tudo o que acontece e o que deixa de acontecer. Algo crônico, insolúvel, irremediável.  Está na genética da administração pública de nosso país desde a república velha.
Como ninguém parece conseguir resolver e como também não aparece nenhum administrador público disposto realmente a isto, a burocracia se tornou este ente intangível, algo impalpável, abstrato e difuso- a resposta inquestionável para as nossas mazelas sociais.
A pergunta continua e já faz tempo:
Será que precisaremos de um milagre?


 (Cansado de assistir aos desmandos dos homens, Ele voltou à Terra Prometida. E foi realizando palestras, pregando à Palavra para todas as pessoas, principalmente para aqueles que, refestelados, se escondiam nos gabinetes. Dizia Ele. “Vós que estais à frente das comunidades, que têm o poder para a transformação, não vos acomodais com aquilo que possa prejudicar a vida e a dignidade do ser humano. Empenhai-vos e dedicai-vos verdadeiramente na resolução das questões que afligem, notadamente, todos aqueles que necessitam das ações públicas. Tirai vossas bundas das cadeiras palacianas, sejais luz e não vos conformeis com este mundo. Vigiai para não justificardes a vossa inoperância com palavras pomposas, destituídas de real significado. Lutais contra o inimigo. Indignai-vos!”).

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A você que passou dos 80



A você que traz nas ruas da face, as rugas do tempo.
Você que muito pouco ouve e muito poucos o ouvem também.
Que tem tanto a dizer, mas se aquieta em meio a tantas vozes que não sabem o que dizem.
A você que caminha lento e soluça de solidão nas manhãs de domingo.
Que tanto já viu e hoje ninguém mais vê.
Que ainda espera e, por vezes, se desespera de tanto esperar.
A você que plantou as sementes ou não teve sequer um chão pra plantar.
Que vive de recordações e de quem ninguém se recorda mais.  
Você que vive em asilo ou no exílio de um lar.  
Você que muito doou e hoje vive na espreita do verbo doar.
Que revela no olhar o sorriso do primeiro encontro,
o último abraço de um grande amigo,
 a lágrima e o riso,
o canto e o desencanto de viver.
Uma única palavra:

Perdão!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A beleza


Externa:

atrai,
 distrai,
trai
cai
esvai.

 Interna:

tece,
 aquece,
fortalece,
   amadurece,
   permanece.


Perdas e danos



É inimaginável a dor de um pai pela perda irreparável da vida de um filho. Mais que isto, como mensurar o tamanho deste sofrimento, se este pai acredita que a perda foi provocada por erros médicos? 
É incalculável o dano social provocado pela paralisação de serviços de transplantes de órgãos em uma cidade. Como calcular a perda de vidas humanas que poderiam ter sido salvas pelo ato voluntário da doação?
É impossível dimensionar a dor de médicos que têm sua credibilidade atingida e que de repente se vêem impedidos do exercício da profissão, presos em celas, suspeitos de terem cometido um crime? Como avaliar o dano moral e espiritual da perda da liberdade? Como colocar algemas em mãos que, livres, tinham o compromisso de salvar vidas?
É indescritível o dano provocado à imagem de uma cidade que tenha seu nome veiculado em todas as redes sociais e mídias tradicionais por supostamente abrigar uma rede clandestina de transplantes. Como medir o que isto afeta a idoneidade da classe médica deste município?
Sim, claro, temos a Justiça que tarda, mas não falha, ou que exatamente por tardar é falha. Tentamos acreditar que ela (a Justiça) se fará presente e dará o veredicto para tal situação. Contudo, quer isto aconteça ou não, cabe contabilizar que o vaso se quebrou e as partes coladas já não representam o mesmo vaso. 
Perdemos todos: os pais, os médicos, os doentes na fila de transplantes, a sociedade. 
O que nos resta? 
Apenas lamentar tanto sofrimento e calar nossa vontade imperiosa de julgar o certo e o errado. Refrear nossos inquestionáveis argumentos de absolvição ou condenação. Deter nossa pretensão de sentenciar a culpabilidade de alguém. 
Neste caso, o silêncio talvez seja nossa maior expressão de lamento. Não é omissão, é impotência. Silenciar, por vezes, é uma forma de pranto. É o grito contido de desalento entre tantas perdas e danos.

domingo, 19 de janeiro de 2014

"Armoço"

As ruas de uma cidade contam muito sobre o desenvolvimento, o crescimento comercial, a situação econômica de determinada comunidade. Mas, sobretudo, nos revelam, sociologicamente, como as pessoas vivem, seus hábitos, comportamentos e até, se mais atentos, o que elas pensam e sentem.
 A Rua Assis Figueiredo em Poços de Caldas é o termômetro do município. O  espelho de quanto à cidade cresceu nas últimas décadas. É possível detectar, nas fachadas das lojas, na chegada dos grandes magazines, no número cada vez maior de veículos e no passo apressado dos transeuntes que aquela Poços bucólica de anos atrás existe apenas em fotos amareladas pelo tempo.
Hoje, por ali, diariamente se encontram e se esbarram, comerciantes e comerciários, empresários e empregadas domésticas, profissionais liberais e políticos de todos os partidos (incluindo os não liberais), muitos pais e filhos e muitos filhos sem pais, “mautoristas” e “mortociclistas”, donas de casas e madames, jovens idosos e idosos jovens, pessoas ligando e desligando o celular, gente que vai e vem, que entra e sai, que fica e vai.
Em meio a tudo isto, há anos, Carlos observava cotidianamente a multidão. Já de muletas, em razão de um problema de saúde, sua figura imóvel, encostada geralmente na parede de um estabelecimento, contrastava com o frenesi existente nas calçadas. Os da nova geração passavam por ele como se Carlos fosse um poste e alguns até, quando notavam sua presença, se desviavam para não serem incomodados por um suposto pedido. Afinal, aquele sujeito ainda jovem e meio gordo, de barba por fazer, de camisa xadrez, calça jeans, parecendo um caubói sem cavalo, não combinava em nada com a moda e os modos dos dias atuais. A pressa no passo nos faz apressar a falta de apreço. 
Por outro lado, Carlos era muito conhecido, principalmente por políticos de todos os partidos, incluindo os não liberais, que o cumprimentavam costumeiramente, sendo que muitos até liberavam um dinheirinho rapidamente, pois, se sabe, existem coisas muitos mais importantes a serem discutidas e resolvidas. Como ficar conversando com Carlos sobre cavalhadas (seu assunto predileto) se o trânsito está ficando caótico, se existem pessoas precisando de atenção nas escolas e hospitais, se as drogas invadem as ruas e lares e, a violência, por ser tão costumeira, já nos deixou de violentar? 
Ah, Carlos, você não sabia que o mundo mudou demais e sua presença, seus assuntos triviais, sua risada marota e até infantil, já não cabiam na Poços de hoje. Você teimava em viver na Rua Paraná, que hoje Carlos, se chama Rua Assis.
Na ultima sexta feira, Carlos Donizetti Cerezani, o popular “Armoço”, nos deixou. Com certeza, não será nome de rua e nem terá seu nome citado no Google. A Rua Assis continuará seu movimento frenético e ninguém por ali notará sua ausência.
Alguém lá de cima o chamou para conversar sobre Cavalhadas e hoje, honrosamente, Carlos, o “Armoço”, já faz parte da Ordem de Cavaleiros de São Jorge. Alguém dúvida?