Quando éramos crianças se alguém em casa passava por algum problema de saúde, lá vinha minha mãe com sua sabedoria e um remedinho caseiro, geralmente um chá de alguma planta medicinal que ela cultivava na horta. E aí, era “tiro e queda”: logo estávamos bem novamente. Atualmente, tantas são as recomendações na área da saúde, que as pessoas ficam com receio de tomar qualquer coisa. Tem gente até evitando tomar banho. Há que se refletir ainda que, embora muitos profissionais da saúde sejam contrários aos “feitos em casa”, o “chá de cadeira”, infelizmente, continua empregado em consultórios médicos.
Mas, voltando ao assunto, o hábito do remedinho caseiro ficou tão marcante em nossa família que ainda hoje, sempre que alguém tem um pequeno mal estar, volta a pegar uma “consulta” com a Dona Ana, que em seus 93 anos, continua receitando seus chás.
Viver hoje tem um custo alto, alimentado pelas necessidades que o consumismo nos propõe. Tal custo nos faz olvidar dos nossos valores e do valor do outro. Colocamos uma venda em nossos olhos e vendemos o nosso maior patrimônio: nós mesmos. Estamos doentes.
Assim é que, pedindo perdão aos leitores pelo trocadilho (sempre infame), quando fico chá-teado com algo que “comi” e que não “digeri” muito bem, agradeço a Deus, ter a possibilidade ainda de recorrer à “minha nascente” e receber os remédios que mantêm a minha integridade e os valores que regem a minha existência.
É lá na horta da casa da minha mãe, no contato com terra e com as plantas, e na conversa próxima ao fogão de lenha, que alimento o meu espírito e que repenso o sentido da minha vida. Foi lá que reaprendi recentemente, que a vida nos propõe sempre uma oportunidade de escolha e que, tudo, absolutamente tudo, é resultado de nossas próprias decisões.
Foi lá que redescobri, que, muitas vezes, o que, inicialmente nos parece amargo, pode ser justamente o que veio nos curar e devolver o que temos de melhor: a nossa essência, o que há em nós, de orgânico.
A vida é sábia. Por vezes nos presenteia com um chá de boldo.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Chovendo no molhado
Tal como show de Roberto Carlos no final de ano, são tantas as “emoções” que acontecem periodicamente em nosso país, que vidente aqui está sem função, já que muitos fatos são evidentemente repetitivos. Infelizmente, as enchentes que destruíram bens e famílias em várias regiões do território nacional são exemplos de nossa falta de “previsão” e provisão. Já vimos este “filme” em outros finais de ano e as cenas se repetiram agora em maior número e violência. E agora, ficamos contando nossos mortos, dia após dia, em uma estatística mórbida que poderia ser, no mínimo, minimizada, caso fossem tomadas ações de prevenção. Mas, depois da porta arrombada e do leite derramado, o governo anuncia que será implementado um sistema de emergência contra desastres naturais. O prazo para tal “emergência” ficar totalmente pronto: 4 anos. Calcula-se que são 5 milhões de brasileiros vivendo em áreas de risco. Quantos deles estarão vivos daqui há 4 anos?
O mesmo fato nos remete a outra constatação igualmente percebida em outras tragédias: a Defesa Civil. Um órgão que inexiste em muitos municípios brasileiros e que, quando existente, só é lembrado pelas autoridades e munícipes, em momentos trágicos, pois no restante do ano fica igual aos túmulos no cemitério: lembrados apenas no dia de finados. Acessando o site do órgão (www.defesacivil.gov.br) pode se ler textualmente lá: “Como conseqüência da grande enchente no Sudeste, no ano de 1966, foi criado, no então Estado da Guanabara, o Grupo de Trabalho com a finalidade de estudar a mobilização dos diversos órgãos estaduais em casos de catástrofes”. Ou seja, há mais de quarenta anos já aconteciam enchentes na região sudeste. Repete-se o refrão, como marchinha de carnaval.
Quer outra nova (antiga) atitude? Da mesma forma como alguns rios foram desviados do seu curso natural, as verbas para programas de prevenção e desastres também sofreram desvios. Dos 425 milhões previstos para 2010 no Programa de Prevenção e Preparação para Desastres, foram liberados pouco mais de 167 milhões. O replay do desvio de verbas também é outra constante na vida nacional. E se as enxurradas são um problema antigo no sudeste, o que dizer da seca no Nordeste, que há tempos também dizima famílias e bens?
Pela TV assistimos um “não vale a pena ver de novo”, com imagens trágicas de perdas constantes, como um déjà vu sádico nas “crônicas da tragédia anunciada”, parafraseando livro do poeta Gabriel Garcia Marquez. O que fazer? Sobra-nos a solidariedade confortável de enviar alimentos e outros equipamentos para as regiões atingidas, com a clara percepção de que tal iniciativa, não terá “acabativa”, já que iremos repetir (de novo o infelizmente) outras vezes a mesma atitude.
Mais exemplos da nossa “mesmice”? Deputados aumentando seus próprios salários, o baixo salário dos professores, a alta carga tributária, os casos de corrupção e desmandos com o dinheiro público, o crescente consumo de drogas, o BBB...
De verdade, pela repetição dos fatos, acabamos por achar tudo normal, aceitando passivamente a nossa “impotência” perante os fatos e os poderes constituídos. E quando, por vezes, sussurramos nossa dor civil, nos sobra à sensação de chover no molhado, como se gritássemos no deserto, como se não houvesse força capaz de vencer as “enchentes” dos descasos e das omissões.
“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede, (nas enchentes e nas secas, nas cidades e nas cercas) são tantas vezes gestos naturais”. (“Podres Poderes”-Caetano Veloso)
O mesmo fato nos remete a outra constatação igualmente percebida em outras tragédias: a Defesa Civil. Um órgão que inexiste em muitos municípios brasileiros e que, quando existente, só é lembrado pelas autoridades e munícipes, em momentos trágicos, pois no restante do ano fica igual aos túmulos no cemitério: lembrados apenas no dia de finados. Acessando o site do órgão (www.defesacivil.gov.br) pode se ler textualmente lá: “Como conseqüência da grande enchente no Sudeste, no ano de 1966, foi criado, no então Estado da Guanabara, o Grupo de Trabalho com a finalidade de estudar a mobilização dos diversos órgãos estaduais em casos de catástrofes”. Ou seja, há mais de quarenta anos já aconteciam enchentes na região sudeste. Repete-se o refrão, como marchinha de carnaval.
Quer outra nova (antiga) atitude? Da mesma forma como alguns rios foram desviados do seu curso natural, as verbas para programas de prevenção e desastres também sofreram desvios. Dos 425 milhões previstos para 2010 no Programa de Prevenção e Preparação para Desastres, foram liberados pouco mais de 167 milhões. O replay do desvio de verbas também é outra constante na vida nacional. E se as enxurradas são um problema antigo no sudeste, o que dizer da seca no Nordeste, que há tempos também dizima famílias e bens?
Pela TV assistimos um “não vale a pena ver de novo”, com imagens trágicas de perdas constantes, como um déjà vu sádico nas “crônicas da tragédia anunciada”, parafraseando livro do poeta Gabriel Garcia Marquez. O que fazer? Sobra-nos a solidariedade confortável de enviar alimentos e outros equipamentos para as regiões atingidas, com a clara percepção de que tal iniciativa, não terá “acabativa”, já que iremos repetir (de novo o infelizmente) outras vezes a mesma atitude.
Mais exemplos da nossa “mesmice”? Deputados aumentando seus próprios salários, o baixo salário dos professores, a alta carga tributária, os casos de corrupção e desmandos com o dinheiro público, o crescente consumo de drogas, o BBB...
De verdade, pela repetição dos fatos, acabamos por achar tudo normal, aceitando passivamente a nossa “impotência” perante os fatos e os poderes constituídos. E quando, por vezes, sussurramos nossa dor civil, nos sobra à sensação de chover no molhado, como se gritássemos no deserto, como se não houvesse força capaz de vencer as “enchentes” dos descasos e das omissões.
“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede, (nas enchentes e nas secas, nas cidades e nas cercas) são tantas vezes gestos naturais”. (“Podres Poderes”-Caetano Veloso)
sábado, 8 de janeiro de 2011
Divagando sobre Devagar
Tempo médio para leitura deste texto: 2 minutos
Início de ano é o momento ideal para se fazer promessas, se bem que tem muito político que fica fazendo isto o ano inteiro. Assim, comecei a rabiscar algo apressadamente em um papel, afinal, tenho apenas 365 dias (364, 363, 362, 361, 360...) para cumpri-las. Mas, ao olhar para o que havia escrito, um detalhe me chamou à atenção: a minha letra (que, diga-se de passagem, (de ano) é horrível até na tela de um computador). Observei que a minha “receita” para o ano novo estava parecendo receita médica: nem o farmacêutico entenderia. Imediatamente pensei em fazer um curso de caligrafia. - Eles existem ainda? Perguntei urgente ao guru oriental, o Google. “Claro- respondeu ele- em real time. Só que hoje são feitos pelo computador, através de apostilas”. Ah! Não tenho tempo para isto.
Foi então que, neste momento (Eureca!) descobri a grande culpada pela minha redação ilegível e inelegível: a pressa. Ela, a inimiga da perfeição, a mãe da impaciência, a grande responsável por acidentes automobilísticos e domésticos.
Se tiver tempo, preste atenção: tem gente usando o cronometro no pulso, ao invés do aposentado relógio. E mais: tem aumentado o número de partos prematuros. Ou seja, até os bebês estão apressados para nascer. Os pediatrasados estão ficando para trás. Nove meses é muito tempo e, pensando assim, já tem mãe ensinando o filho a escrever com ele ainda na barriga.
Refletimos: “fast food” não é só um tipo de comida feito rapidamente, mas, principalmente, a maneira como nos alimentamos, sem sentir o sabor dos alimentos, engolindo sem mastigar. Especialistas dizem que devemos mastigar 30 vezes a cada garfada. Seguimos o conselho: estamos mastigando 30 vezes a cada refeição.
Perceba quantas pessoas você conhece que falam depressa demais. Tem gente que fecha a boca e as palavras continuam saindo. Viramos, todos, locutores de corrida de cavalo e nem foi dada a largada.
Quantas vezes, a gente se pega acelerado em pleno domingo, como se tivéssemos realmente a necessidade de chegar mais rápido em algum lugar. Nem paramos mais para conversar. O Clube da Esquina fechou por falta de quorum.
Dias atrás fiquei olhando para uma tartaruga de estimação na casa de um amigo. Não posso afirmar com certeza, mas, notei que até ela estava mais veloz. Pensei em realizar anualmente uma corrida de tartarugas, mas, desisti da brilhante ideia, pois precisaria de tempo para organizar o evento.
Sei não, mas o jeito que as coisas andam (ou seria voam?), não me espantaria em ver o Martinho da Vila lançando um disco de funk ou de rap. “Édevagarédevagarédegavardevagarinho”.
Não foi sem razão que coloquei o tempo médio de leitura no alto deste texto. Aliás, penso que a prática irá se tornar comum, como uma receita que indica o tempo do preparo dos alimentos.
Por falar nisto, e voltando ao assunto inicial, a minha receita para este ano que está começando é apenas uma: fazer tudo bem devagar, em câmera lenta, slow motion. Assim, como o diálogo daqueles dois baianos (sem preconceitos) - Meu rei veja aí pra mim...
A braguilha da minha calça ta aberta?- Olhe... Ta não...
- Então, vou deixar o xixi pra amanhã...
Início de ano é o momento ideal para se fazer promessas, se bem que tem muito político que fica fazendo isto o ano inteiro. Assim, comecei a rabiscar algo apressadamente em um papel, afinal, tenho apenas 365 dias (364, 363, 362, 361, 360...) para cumpri-las. Mas, ao olhar para o que havia escrito, um detalhe me chamou à atenção: a minha letra (que, diga-se de passagem, (de ano) é horrível até na tela de um computador). Observei que a minha “receita” para o ano novo estava parecendo receita médica: nem o farmacêutico entenderia. Imediatamente pensei em fazer um curso de caligrafia. - Eles existem ainda? Perguntei urgente ao guru oriental, o Google. “Claro- respondeu ele- em real time. Só que hoje são feitos pelo computador, através de apostilas”. Ah! Não tenho tempo para isto.
Foi então que, neste momento (Eureca!) descobri a grande culpada pela minha redação ilegível e inelegível: a pressa. Ela, a inimiga da perfeição, a mãe da impaciência, a grande responsável por acidentes automobilísticos e domésticos.
Se tiver tempo, preste atenção: tem gente usando o cronometro no pulso, ao invés do aposentado relógio. E mais: tem aumentado o número de partos prematuros. Ou seja, até os bebês estão apressados para nascer. Os pediatrasados estão ficando para trás. Nove meses é muito tempo e, pensando assim, já tem mãe ensinando o filho a escrever com ele ainda na barriga.
Refletimos: “fast food” não é só um tipo de comida feito rapidamente, mas, principalmente, a maneira como nos alimentamos, sem sentir o sabor dos alimentos, engolindo sem mastigar. Especialistas dizem que devemos mastigar 30 vezes a cada garfada. Seguimos o conselho: estamos mastigando 30 vezes a cada refeição.
Perceba quantas pessoas você conhece que falam depressa demais. Tem gente que fecha a boca e as palavras continuam saindo. Viramos, todos, locutores de corrida de cavalo e nem foi dada a largada.
Quantas vezes, a gente se pega acelerado em pleno domingo, como se tivéssemos realmente a necessidade de chegar mais rápido em algum lugar. Nem paramos mais para conversar. O Clube da Esquina fechou por falta de quorum.
Dias atrás fiquei olhando para uma tartaruga de estimação na casa de um amigo. Não posso afirmar com certeza, mas, notei que até ela estava mais veloz. Pensei em realizar anualmente uma corrida de tartarugas, mas, desisti da brilhante ideia, pois precisaria de tempo para organizar o evento.
Sei não, mas o jeito que as coisas andam (ou seria voam?), não me espantaria em ver o Martinho da Vila lançando um disco de funk ou de rap. “Édevagarédevagarédegavardevagarinho”.
Não foi sem razão que coloquei o tempo médio de leitura no alto deste texto. Aliás, penso que a prática irá se tornar comum, como uma receita que indica o tempo do preparo dos alimentos.
Por falar nisto, e voltando ao assunto inicial, a minha receita para este ano que está começando é apenas uma: fazer tudo bem devagar, em câmera lenta, slow motion. Assim, como o diálogo daqueles dois baianos (sem preconceitos) - Meu rei veja aí pra mim...
A braguilha da minha calça ta aberta?- Olhe... Ta não...
- Então, vou deixar o xixi pra amanhã...
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Atenção senhores passageiros
Estaremos dentro de pouco tempo, começando mais uma viagem, com um tempo previsto em todo o trajeto de 365 dias. Carimbem o passaporte, definam o destino e embarquem na plataforma 2011. Quem tiver mágoas, ressentimentos, pendências e tristezas antigas na bagagem, favor descarregá-las no Balcão 2010, ao lado dos banheiros. Recomendamos o uso dos sapatos da boa vontade e as camisas do otimismo, evitando, durante a viagem, as saias justas da competitividade insana e os nós da gravata da ambição desenfreada. Os passageiros que portarem sorriso nos lábios, coração aberto e mãos prontas a construir terão assento preferencial ao lado da janela da felicidade. Solicitamos a todos que apertem o cinto da esperança e recomendamos que ninguém, em hipótese alguma, utilize a saída de emergência durante a viagem. Caso haja períodos de turbulência, mantenham a calma e a confiança no piloto desta aeronave, o Grande Comandante Universal. Em qualquer situação de medo ou desespero, contem também com nosso atendimento de bordo realizado permanentemente por nossos anjos do espaço que estarão ao lado de cada passageiro. Recomendamos durante todo o trajeto, atitudes de solidariedade, de atenção e carinho, principalmente, com as crianças e idosos, o que garante a participação em nosso programa de milhagem. O ar das cabines, em virtude das ações do homem, está extremamente seco, por isto, sugerimos a ingestão de água durante toda a viagem. Além disto, moderação com as bebidas alcoólicas e alimentos gordurosos. Recomendamos também exercícios físicos como exercitar as pernas, braços e pés, evitando os inchaços prejudiciais à saúde. Importante lembrar, que embora tenhamos pessoas viajando em classes diferentes, nada assegura que na próxima viagem os passageiros terão direito aos mesmos assentos. Portanto, respeito e bom relacionamento com cada companheiro de viagem, independente da classe a qual pertença, será motivo de avaliação no momento do check-out. Para isto lembramos utilizarem o crachá da amizade e palavras de agradecimento e compreensão. Teremos, como já é de conhecimento de todos, muitas escalas durante o trajeto, o que implica na necessária entrada e saída de pessoas, valendo recordar em todos os momentos da contínua confiança no Grande Comandante Universal.
A todos, uma excelente viagem!
A todos, uma excelente viagem!
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
R$ 26.700,00
O número é sempre um referencial de valor concreto ou abstrato, utilizado como diz o “Dizcionário” para descrever quantidade, ordem ou medida. O 1, por exemplo, lido como primeiro pode dar o significado de o melhor, aquele que superou os seus adversários, o campeão. Usar a camisa 10 em um time de futebol carrega o peso, imortalizado por Pelé, de ser, geralmente o craque do time. O mesmo número dado à prova de um aluno nos diz que ele foi aprovado com a nota máxima. O numero 100 acompanhado de porcentagem (100%) carrega também significados múltiplos dependendo do contexto em que a porcentagem está inserida. Enfim, os exemplos são inúmeros (opps): o 13 significa azar ou zebra, o 7 é numero de mentiroso, 18 é a maioridade, 33 a idade de cristo, 51 é a boa idéia, 22 dois patinhos na lagoa, 69 é...deixa prá lá. Bingo! E uma curiosidade que encontrei na Internet e que pode mudar a sua vida: uma pessoa levaria doze dias para contar de 1 até 1 milhão, se demorasse apenas um segundo em cada número. Para chegar a 1 bilhão, ela precisaria de 32 anos. (Se tiver com tempo, pode começar agora).
Consultando os sábios, Pitágoras dizia que o número é o princípio e a essência de todas as coisas. Para Aristóteles, o movimento acelerado ou retardado. “Número é a classe de todas as classes equivalente a uma dada classe”. (Bertrand Russel)- Não entendi esta última pois estava fora da classe neste dia.
Enfim, nossa vida é orientada por números: da carteira de identidade à conta no banco, da senha no cartão de crédito ao numero do celular. Além do concreto, o número signfica uma forma de enxergar as coisas, um posicionamento, a (in) compreensão de uma situação.
Mas, hoje, um número, uma cifra, chamou a minha atenção e a dos milhões de brasileiros: R$ 26,7 mil. Esse o novo salário para deputados, senadores, presidente e vice e ministros de Estados, a vigorar a partir de fevereiro, se o projeto passar pelo Senado e se receber a sancão do presidente da república. Quer outro número ligado ao tema: no caso dos deputados significa um reajuste de 62,5 por cento sobre os atuais vencimentos que estão sem alteração desde 2007. A inflação deste mesmo período (2007-2010)? 20%. Lembrando ainda que o reajuste terá efeito cascata sobre os salários dos deputados estaduais e vereadores. Tudo legal e aprovado em tempo recorde para um projeto de tamanha extensão: menos de 4 horas. Um outro número revelador.
Se tudo sempre fica obscuro nos depoimentos dos nossos representantes, os números decodificam o que as palavras proferidas em entrevistas e nos pulpitos tentam dissimular. Mais uma vez, temos a prova dos 9, da falta de sensibilidade e da compreensão da realidade brasileira. O salário requerido e considerado “justo” pela maioria dos deputados, não faz justiça aos milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Se os deputados possuem legalmente a possibilidade de aumentar os seus próprios salários, o que se espera sempre é dignidade e zelo com o dinheiro público. Os números não mentem, mas os deputados...
Não é vergonha ganhar bem. Vergonha é não ter saneamento básico, acesso à educação de qualidade, moradia e outros instrumentos que deveriam compor a “cesta básica” de todo brasileiro na busca de uma vida digna.
Muitas vezes um número nos provoca vergonha. Pena que quem deveria sentir isto, faz de conta que não vê e utiliza sempre a própria calculadora para aumentar os seus vencimentos.
Consultando os sábios, Pitágoras dizia que o número é o princípio e a essência de todas as coisas. Para Aristóteles, o movimento acelerado ou retardado. “Número é a classe de todas as classes equivalente a uma dada classe”. (Bertrand Russel)- Não entendi esta última pois estava fora da classe neste dia.
Enfim, nossa vida é orientada por números: da carteira de identidade à conta no banco, da senha no cartão de crédito ao numero do celular. Além do concreto, o número signfica uma forma de enxergar as coisas, um posicionamento, a (in) compreensão de uma situação.
Mas, hoje, um número, uma cifra, chamou a minha atenção e a dos milhões de brasileiros: R$ 26,7 mil. Esse o novo salário para deputados, senadores, presidente e vice e ministros de Estados, a vigorar a partir de fevereiro, se o projeto passar pelo Senado e se receber a sancão do presidente da república. Quer outro número ligado ao tema: no caso dos deputados significa um reajuste de 62,5 por cento sobre os atuais vencimentos que estão sem alteração desde 2007. A inflação deste mesmo período (2007-2010)? 20%. Lembrando ainda que o reajuste terá efeito cascata sobre os salários dos deputados estaduais e vereadores. Tudo legal e aprovado em tempo recorde para um projeto de tamanha extensão: menos de 4 horas. Um outro número revelador.
Se tudo sempre fica obscuro nos depoimentos dos nossos representantes, os números decodificam o que as palavras proferidas em entrevistas e nos pulpitos tentam dissimular. Mais uma vez, temos a prova dos 9, da falta de sensibilidade e da compreensão da realidade brasileira. O salário requerido e considerado “justo” pela maioria dos deputados, não faz justiça aos milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Se os deputados possuem legalmente a possibilidade de aumentar os seus próprios salários, o que se espera sempre é dignidade e zelo com o dinheiro público. Os números não mentem, mas os deputados...
Não é vergonha ganhar bem. Vergonha é não ter saneamento básico, acesso à educação de qualidade, moradia e outros instrumentos que deveriam compor a “cesta básica” de todo brasileiro na busca de uma vida digna.
Muitas vezes um número nos provoca vergonha. Pena que quem deveria sentir isto, faz de conta que não vê e utiliza sempre a própria calculadora para aumentar os seus vencimentos.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Com ou sem emoção?
Recentemente fiquei sabendo que pertenço à geração “baby boomer” e pensei: como sobrevivi até os dias atuais sem saber disso?
Coisa de americano que busca colocar todas as coisas como produtos em gôndolas de supermercado. O baby boomers (me lembra nome de fralda) é a geração de pessoas que nasceram de uma “explosão populacional” nos Estados Unidos, entre os anos de 1946 e 1964 e que estão hoje próximas aos 60 anos de idade (“os sexo-genários”). Entre características e diferenças, uma identifica os boomers: foi a primeira geração que cresceu em frente à televisão. (“É que a televisão me deixou burro, muito burro demais”-Televisão-Titãs). Sem dúvida, isto mudou tudo. A imagem aliada ao som veio possibilitar o acesso a um mundo novo que chegou através das séries de TV: Bonanza, Jeannie é um gênio, Jornada nas Estrelas, Os Invasores, O Vigilante Rodoviário (nacional), entre tantos outros filmes e programas. (“Quando nascemos fomos programados pra receber o que vocês, nos empurram com os enlatados, dos U.S.A., de nove as seis”-Geração Coca-Cola- Renato Russo). Som e imagem enfim se encontravam (mesmo que em Black and White) em uma tecnologia que acessava novas emoções. Uma delas é que passamos a ter uma classe diferente de amigos, “os televizinhos”- pessoas que iam até a casa do vizinho para assistir a TV. Era uma festa regada a pipoca e a Crush (que não era uma série de TV, mas um refrigerante). Momentos de convivência e de aprofundamento nas relações, já que depois ficávamos horas a discutir o que vimos na telinha.
Hoje, nós boomers, partilhamos a existência com outras gerações: a X (a dos filhos dos boomers-nascidos entre os anos 1960 e 1980), a Y (nascidos entre os anos 1980 e 2000) e a Z (após o ano 2000). Todos convivendo nesta sopa de letrinhas do mundo atual. E tal como a televisão nos anos 1960, um ponto nos une (ou nos separa?): a tecnologia (o computador, a Internet, o iPod...), que mais que o som e a imagem, nos permite, entre outras coisas, o acesso à mobilidade e à virtualização. Isto também mudou tudo. Dias atrás, por exemplo, me espantei ao ver um jovem Z comentando que a conversa via telefone era muito pessoal. Fiquei de cara! O virtual, por vezes, parece um hacker a enviar uma espécie de vírus amedrontando as pessoas para um relacionamento real.
E a pergunta que, principalmente nós, “os tiozaõs”, fazemos diariamente é: a tecnologia está melhorando a nossa vida? Entre tantos questionamentos em um assunto tão complexo, me veio à lembrança os passeios de buggy ou de jipe realizados principalmente nas praias do litoral de Natal no Rio Grande do Norte, onde o condutor pergunta aos turistas que pretendem realizar o passeio: “Com ou sem emoção?”.
Talvez seja isto. A vida é esta viagem que nos oferece muitos instrumentos e a “emoção” é fruto das nossas escolhas. Particularmente, acredito que receber um cartão com o selo dos Correios enviado por uma pessoa amiga desejando Boas Festas, transmite mais emoção que receber um “e-mail” com a mesma mensagem em um “Undisclosed-Recipient”. Mas, paralelamente, não questiono a emoção de mães, ao verem pela Internet, a imagem e a voz em tempo real dos filhos que se encontram a quilômetros de distância. Ainda penso que o chat (a conversa virtual) não substitui a emoção do olho no olho, de um abraço coração a coração, da presença física das pessoas que queremos bem. Mas, será que internautas X,Y,Z não sentem também a mesma emoção em receber pela web aquelas carinhas com símbolos usados na Internet para expressar felicidade, tristeza e outros sentimentos, os chamados Emoticons?
Em um assunto que não se esgota, talvez caiba a cada um, independente da geração que pertença, aplicar o seu próprio antivírus, nas escolhas individuais e intransferíveis do cotidiano. Neste universo cibernético, onde a rapidez nos atropela, a vida é o buggie, o ambiente são as dunas, e a pergunta é a mesma: Com ou sem emoção?
Coisa de americano que busca colocar todas as coisas como produtos em gôndolas de supermercado. O baby boomers (me lembra nome de fralda) é a geração de pessoas que nasceram de uma “explosão populacional” nos Estados Unidos, entre os anos de 1946 e 1964 e que estão hoje próximas aos 60 anos de idade (“os sexo-genários”). Entre características e diferenças, uma identifica os boomers: foi a primeira geração que cresceu em frente à televisão. (“É que a televisão me deixou burro, muito burro demais”-Televisão-Titãs). Sem dúvida, isto mudou tudo. A imagem aliada ao som veio possibilitar o acesso a um mundo novo que chegou através das séries de TV: Bonanza, Jeannie é um gênio, Jornada nas Estrelas, Os Invasores, O Vigilante Rodoviário (nacional), entre tantos outros filmes e programas. (“Quando nascemos fomos programados pra receber o que vocês, nos empurram com os enlatados, dos U.S.A., de nove as seis”-Geração Coca-Cola- Renato Russo). Som e imagem enfim se encontravam (mesmo que em Black and White) em uma tecnologia que acessava novas emoções. Uma delas é que passamos a ter uma classe diferente de amigos, “os televizinhos”- pessoas que iam até a casa do vizinho para assistir a TV. Era uma festa regada a pipoca e a Crush (que não era uma série de TV, mas um refrigerante). Momentos de convivência e de aprofundamento nas relações, já que depois ficávamos horas a discutir o que vimos na telinha.
Hoje, nós boomers, partilhamos a existência com outras gerações: a X (a dos filhos dos boomers-nascidos entre os anos 1960 e 1980), a Y (nascidos entre os anos 1980 e 2000) e a Z (após o ano 2000). Todos convivendo nesta sopa de letrinhas do mundo atual. E tal como a televisão nos anos 1960, um ponto nos une (ou nos separa?): a tecnologia (o computador, a Internet, o iPod...), que mais que o som e a imagem, nos permite, entre outras coisas, o acesso à mobilidade e à virtualização. Isto também mudou tudo. Dias atrás, por exemplo, me espantei ao ver um jovem Z comentando que a conversa via telefone era muito pessoal. Fiquei de cara! O virtual, por vezes, parece um hacker a enviar uma espécie de vírus amedrontando as pessoas para um relacionamento real.
E a pergunta que, principalmente nós, “os tiozaõs”, fazemos diariamente é: a tecnologia está melhorando a nossa vida? Entre tantos questionamentos em um assunto tão complexo, me veio à lembrança os passeios de buggy ou de jipe realizados principalmente nas praias do litoral de Natal no Rio Grande do Norte, onde o condutor pergunta aos turistas que pretendem realizar o passeio: “Com ou sem emoção?”.
Talvez seja isto. A vida é esta viagem que nos oferece muitos instrumentos e a “emoção” é fruto das nossas escolhas. Particularmente, acredito que receber um cartão com o selo dos Correios enviado por uma pessoa amiga desejando Boas Festas, transmite mais emoção que receber um “e-mail” com a mesma mensagem em um “Undisclosed-Recipient”. Mas, paralelamente, não questiono a emoção de mães, ao verem pela Internet, a imagem e a voz em tempo real dos filhos que se encontram a quilômetros de distância. Ainda penso que o chat (a conversa virtual) não substitui a emoção do olho no olho, de um abraço coração a coração, da presença física das pessoas que queremos bem. Mas, será que internautas X,Y,Z não sentem também a mesma emoção em receber pela web aquelas carinhas com símbolos usados na Internet para expressar felicidade, tristeza e outros sentimentos, os chamados Emoticons?
Em um assunto que não se esgota, talvez caiba a cada um, independente da geração que pertença, aplicar o seu próprio antivírus, nas escolhas individuais e intransferíveis do cotidiano. Neste universo cibernético, onde a rapidez nos atropela, a vida é o buggie, o ambiente são as dunas, e a pergunta é a mesma: Com ou sem emoção?
domingo, 28 de novembro de 2010
Rio, tempo de estio
A imagem que a maioria de nós tem do Rio de Janeiro é aquela de um cartão postal com natureza privilegiada, praias e recantos, em uma das mais belas composições do criador. Por sua vez, o homem cantou também a beleza do Rio, através de dezenas de canções ao longo do tempo. Desde o hino oficial da cidade, “Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil...” (Cidade Maravilhosa -André Filho), passando por “Moça do corpo dourado do sol de Ipanema...“ (Garota de Ipanema – Tom Jobim/Vinicius de Moraes), até “Do Leme ao Pontal, não há nada igual...” (Do Leme ao Pontal-Tim Maia). Como não cantar “Rio, seu mar, praia sem fim, Rio, você foi feito prá mim...” ? (O Samba do Avião-Tom Jobim). Ou mesmo, “O Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo...”. (Aquele abraço- Gilberto Gil). A cidade nos legou maravilhosos músicos e poetas: Milton Nascimento, Ivan Lins, Jorge Benjor, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Tim Maia, Carlos Lyra, João Nogueira, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Tom Jobim, Noel Rosa, Cartola e tantos outros.
Mas, a natureza é dual: onde há luz, há sombra, onde existe riqueza, insiste a miséria. A natureza carioca encanta aos olhos, mas, a vida real desencanta a muitos e a droga surge como um elixir que parece tornar a beleza permanente, a alegria infindável. Na paz do azul do mar carioca, o reflexo nos morros que circundam a cidade, é o da guerra de longa data entre os chefes do tráfico. No final da década de 70, nascia o Comando Vermelho (CV), que auxiliado pela política de segurança pública que proibia a polícia de atuar nos morros, fez valer ao longo do tempo, a expressão “crime organizado”, na relação entre os traficantes e os cartéis da Bolívia e da Colômbia e nas conquistas graduais das bocas de fumo. Dos desafetos do CV, surgiu o Terceiro Comando e mais tarde, em 1994, o Amigos dos Amigos (ADA). Paralelamente ao aparecimento de novas facções, os comerciantes cariocas começaram a pagar policiais para garantir a segurança: surgiram as milícias – grupos paramilitares convivendo e disputando com os traficantes o espaço da violência e da extorsão. “Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos...”. (Rio 40 graus- Fernanda Abreu).
Hoje, assistimos pela TV, cenas que parecem retiradas de um filme, um “Tropa de Choque-3”: tanques, helicópteros, armamento bélico pesado, policiais civis, federais e militares. Moradores se manifestando favoravelmente a ação. Há um clima de tensão e, simultaneamente, a sensação de alívio e heroísmo. O Rio de Janeiro se tornou um campo de batalha, onde os “mocinhos” venceram os “bandidos”. Sobra-nos a certeza de que uma batalha foi ganha, mas, a guerra continuará presente no dia-a-dia carioca. Para nós, moradores aqui dos morros mineiros, no sul de Minas Gerais, a partilha de um sentimento solidário de paz e esperança aos que vivem na cidade maravilhosa. Que cada menino dos morros cariocas possa ter o “calção corpo aberto no espaço e um coração de eterno flerte.” Pegamos carona na oração de Caetano. “Menino vadio, tensão flutuante do Rio, eu canto prá Deus proteger-te...”. (Menino do Rio – Caetano Veloso).
Mas, a natureza é dual: onde há luz, há sombra, onde existe riqueza, insiste a miséria. A natureza carioca encanta aos olhos, mas, a vida real desencanta a muitos e a droga surge como um elixir que parece tornar a beleza permanente, a alegria infindável. Na paz do azul do mar carioca, o reflexo nos morros que circundam a cidade, é o da guerra de longa data entre os chefes do tráfico. No final da década de 70, nascia o Comando Vermelho (CV), que auxiliado pela política de segurança pública que proibia a polícia de atuar nos morros, fez valer ao longo do tempo, a expressão “crime organizado”, na relação entre os traficantes e os cartéis da Bolívia e da Colômbia e nas conquistas graduais das bocas de fumo. Dos desafetos do CV, surgiu o Terceiro Comando e mais tarde, em 1994, o Amigos dos Amigos (ADA). Paralelamente ao aparecimento de novas facções, os comerciantes cariocas começaram a pagar policiais para garantir a segurança: surgiram as milícias – grupos paramilitares convivendo e disputando com os traficantes o espaço da violência e da extorsão. “Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos...”. (Rio 40 graus- Fernanda Abreu).
Hoje, assistimos pela TV, cenas que parecem retiradas de um filme, um “Tropa de Choque-3”: tanques, helicópteros, armamento bélico pesado, policiais civis, federais e militares. Moradores se manifestando favoravelmente a ação. Há um clima de tensão e, simultaneamente, a sensação de alívio e heroísmo. O Rio de Janeiro se tornou um campo de batalha, onde os “mocinhos” venceram os “bandidos”. Sobra-nos a certeza de que uma batalha foi ganha, mas, a guerra continuará presente no dia-a-dia carioca. Para nós, moradores aqui dos morros mineiros, no sul de Minas Gerais, a partilha de um sentimento solidário de paz e esperança aos que vivem na cidade maravilhosa. Que cada menino dos morros cariocas possa ter o “calção corpo aberto no espaço e um coração de eterno flerte.” Pegamos carona na oração de Caetano. “Menino vadio, tensão flutuante do Rio, eu canto prá Deus proteger-te...”. (Menino do Rio – Caetano Veloso).
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